Como Eu Era Antes De Você – A Escolha de Will Traynor

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OBS: Contém Spoilers.

Em meados do ano passado, uma amiga me perguntou se eu já havia lido o livro Como Eu Era Antes de Você, até então, eu nem sabia da existência dele. Ela falou que o livro era maravilhoso, que o final era surpreendente e todas aquelas coisas que falamos sobre um livro que gostamos.

Eu confesso que nem dei bola, pensei que seria um livro ao estilo A Culpa é das Estrelas, fiz cara de paisagem para minha amiga e disse que iria lê-lo (Todos sabem que não se contraria um leitor apaixonado).

No inicio do ano, vi essa mesma amiga surtando em uma postagem do Facebook, era o dia em que sairia o primeiro Trailer do filme. Para minha total surpresa, assisti ao Trailer e me desmanchei em lágrimas, no mesmo instante corri para comprar o meu exemplar.

Sim, eu queria que Will ficasse vivo, sim, eu sofri pela Lou e mesmo sofrendo, aceitei a escolha que ele fez, pois meu lado estudante de direito, viu não só uma história romântica para um livro e filme, eu vi Direito de Escolha.

Vamos analisar a situação de Will, ele era uma pessoa ativa, trabalhava, praticava esportes e vivia intensamente. Depois do acidente, ele teve quatro crises de pneumonia em um espaço de dois anos, tinha uma bactéria incurável no pulmão, seu corpo não consegue regular a própria temperatura e no ápice do desespero tentou o suicídio, cortando o pulso com um prego enferrujado.

Vejamos este trecho do livro:

E sabe o que? Ninguém quer ouvir esse tipo de coisa. Ninguém quer ouvir você falar que está com medo, ou com dor, ou apavorado coma possibilidade de morrer por causa de alguma infecção aleatória e estúpida. Ninguém quer ouvir sobre como é saber que você nunca mais fará sexo, nunca mais comerá algo que você mesmo preparou, nunca vai segurar seu próprio filho nos braços. Ninguém quer saber que às vezes me sinto claustrofóbico estando nesta cadeira que tenho vontade de gritar feito louco só de pensar em passar mais um dia assim”.

Ninguém sabe o que Will sentia ou pensava, já que até mesmo na vida real, um tetraplégico tem pensamentos e sentimentos diferentes uns dos outros. Por isso, ao contrário de muitos leitores, aceitei a sua decisão. Sei que muitos tetraplégicos se manifestaram contra o livro e o filme, mas independentemente de ser realidade ou ficção, há no mundo moderno, pessoas que vivem em situações como a de Will e optam por dar fim ao próprio sofrimento, buscando o suicídio assistido, já que estes não conseguem suportar a situação em que se encontram no momento.

Digamos que Will vivesse no Brasil e desejasse realizar o suicídio assistido aqui mesmo, ele seria impedido pela Constituição Federal, já que a mesma garante a tutela da vida humana.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade […]

O Direito à vida é um dos alicerces da Republica Federativa do Brasil, toda e qualquer manifestação ao contrário, fere os princípios constitucionais.

Se Will vivesse no Brasil, e sua família ou amigos se compadecessem de seu sofrimento e lhe tirassem a vida ou fornecessem qualquer tipo de auxilio para que assim cessasse seu sofrimento, aquele que o fizesse, seria enquadrado no Art. 121 do Código Penal Brasileiro, mas teria a pena reduzida, já que nestas circunstâncias, o crime contra a vida de Will seria considerado crime de relevante valor social ou moral.

Art. 121. Matar alguém:

 Pena – reclusão, de seis a vinte anos.

  • 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço.

Quanto ao induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio:

Art. 122 – Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:

 Pena – reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

Ainda assim, Will poderia ter ido para a Suíça e procurado o Dignitas, como ocorre no livro e filme, pois lá esta prática é permitida, desde que o suicídio não ocorra por motivos torpes ou egoístas, que o paciente tenha diagnostico de morte previsível, tenha doença grave e cause sofrimentos psíquicos e físicos que dificultem a vida do mesmo.

Vale ressaltar que o paciente deve estar em plenas faculdades mentais, não estando em quadro depressivo, já que a decisão tem que ser exclusivamente dele, tanto que este deve ser capaz de tomar sozinho o Pentabarbital que é a substância usada no procedimento. Caso isso não ocorra e haja a intervenção de um terceiro, deixa de ser suicídio assistido e passa a ser considerada eutanásia, o que é proibido na Suíça.

Para segurança legal dos envolvidos no suicídio assistido (médicos, familiares e amigos que se fizerem presentes no momento) todo o procedimento é gravado e nele é mostrado que fora próprio paciente quem deu fim à sua vida.

Isso é notado no final do livro, Jojo fora perspicaz ao colocar o relatório da investigação que comprovou que Will cometera Suicídio Assistido e que não houve qualquer tipo de crime por parte de sua família.

“ Embora a Promotoria do Reino não incentive o suicídio assistido feito em clínicas no exterior, e a julgar pelas provas coletadas, fica claro que os procedimentos da família e dos cuidadores do Sr. Traynor atendem às atuais diretrizes relativas ao suicídio assistido e ao provável processo das pessoas próximas ao falecido.

  1. O Sr. Traynor foi considerado apto e manifestou o desejo “voluntário, claro, definido e informado” de tomar tal decisão.
  2. Não há provas de deficiência mental, ou de qualquer tipo de coerção.
  3. O Sr. Traynor deu provas inequívocas do desejo de se suicidar.
  4. A deficiência física do Sr. Traynor era grave e incurável.
  5. Os acompanhantes do Sr. Traynor tiveram pouca participação e influência.
  6. Os acompanhantes do Sr. Traynor podem ser considerados relutantes em relação ao desejo determinado da vítima.
  7. Todos os envolvidos deram toda a assistência à polícia na investigação do caso. ”

Não acho que Will fora egoísta como muitos dizem por aí, acredito que mesmo amando a Lou, ele sabia que ela merecia uma vida plena e feliz, mas do que a patética vida que ela levava. Não me venham dizer que era possível que eles pudessem fazer tudo isso junto, não sabemos. Talvez sim, talvez não. O fato é que ele queria que ela fosse livre assim como ele já havia sido um dia e desculpe-me os que pensam ao contrário, mas deixa-la livre foi a maior prova de amor que ele poderia ter dado à ela. E ela, por sua vez, já nos últimos instantes de vida de Will, consegue entender isso, tanto que vai ficar com eles nos seus últimos instantes.

Fechei os olhos, sentindo o cheiro dele, ainda era o mesmo de cedro, apesar do frescor do quarto, com o levemente incômodo odor de desinfetante. Tentei não pensar em nada. Tentei apenas ficar ali, absorver o homem que eu amava por osmose, guardar em mim o que sobrava dele. Não falei nada.”

Foi neste instante que mal conseguia enxergar as letras do meu livro, as lágrimas escorriam sem que eu as controlasse. Pensei nas dezenas de pessoas que já passaram por isso e no quanto elas sofreram, tanto as que estavam para dar fim na própria vida e nos que elas estavam deixando para traz. Dei-me conta de que o ser humano é egoísta de mais para aceitar a decisão do outro, vivemos bitolados com a ideia de que amar é estar sempre juntos. Não é. Há momentos na vida, em que a maior prova de amor é respeitar a decisão do outro.

“— Clark, você ainda não entendeu, não é? — Percebi um sorriso na voz dele. — A decisão não é sua.”

A decisão não era dela, era apenas dele. Não nego que por alguns instantes, tive vontade de dizer “Ei, Clark! Por favor, não chore. Agora ele ficará bem”.

“Beijei-o, tentando trazê-lo de volta. Deixei meus lábios nos dele de maneira que nossa respiração se misturou e minhas lágrimas viraram sal na sua pele e disse a mim mesma que, em algum lugar, pequenas partículas dele virariam pequenas partículas de mim, ingeridas, engolidas, vivas, eternas. Queria apertar cada parte minha nele, deixar alguma coisa minha nele, dar a ele cada pedaço da minha vida e obrigá-lo a viver.”

Não quero que pensem que pessoas com doenças graves, tetraplégicos ou qualquer outro tipo de doença não possa ter uma vida feliz, defendo apenas o Direito que Will teve de escolher como sua vida chegaria ao fim. Também não quero entrar no campo religioso, pois isso renderia um texto muito maior que este, eu defendo apenas o lado jurídico da história, o lado das opções e escolhas.

Apenas viva bem. Apenas viva.”

Viver intensamente é saber exatamente o lugar e o momento em que se quer estar. Will fez sua escolha, baseado no que acreditava ser o melhor. Se ele fez certo ou errado, quem somos nós para julgar? Devemos apenas aceitar e seguir em frente, assim como fazem todos que já despediram de alguém muito querido.

Por: Vanessa J. Rasfaski

 

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