E se todo mundo realmente tivesse uma alma gêmea?

9 de Janeiro de 2018

SERIA UM PESADELO. Existem vários problemas na ideia de uma alma gêmea única e aleatória. Como Tim Minchin explicou na música “If I Didn’t Have You”:

Your love is one in a million;

You couldn’t buy it at any price.

But of the 9999 hundred thousand other loves,

Statistically, some of them would be equally nice.*

*“Seu amor é um em 1 milhão;/ Não existe preço que compre./ Mas das 9999 centenas de milhares de outros amores,/ Segundo a estatística, alguns seriam igualmente legais.”

Mas e se tivéssemos a atribuição ao acaso de uma alma gêmea perfeita e não houvesse como ser feliz com outra pessoa? Será que a encontraríamos? Vamos supor que sua alma gêmea fosse determinada ao nascer. Você não sabe nada sobre a pessoa, quem é ou onde está, mas — como diz o clichê — vocês se reconhecerão num cruzar de olhares. Logo de cara, isso rende algumas perguntas. Para começar, será que sua alma gêmea ainda estaria viva? Uns 100 bilhões de humanos já existiram, mas só 7 bilhões estão vivos no momento (o que mostra que a condição humana tem uma taxa de mortalidade de 93%). Se fôssemos emparelhados aleatoriamente, 90% de nossas almas gêmeas estariam mortas há muito tempo.

                                     
E isso seria horrível. Mas peraí, fica pior. Um argumento bem simples demonstra que não devemos nos limitar aos seres humanos do passado, pois também temos que incluir um número incontável de seres humanos do futuro. Pois veja só: se nossa alma gêmea pode estar no passado remoto, então também pode ser possível encontrar almas gêmeas no futuro distante. Afinal de contas, ela é sua alma gêmea. Então vamos supor que vocês vivam na mesma época. Além disso, para não sermos desagradáveis, ela está na mesma faixa etária que você. (Que é mais restrita que a fórmulapadrão da desagradabilidade na diferença de idade; mas, se vamos imaginar que duas pessoas de trinta e quarenta anos podem ser almas gêmeas, a regra da desagradabilidade é violada se elas se conhecerem por acaso quinze anos antes.) Considerando a restrição de faixa etária, a maioria da humanidade teria uma reserva de aproximadamente meio bilhão de combinações possíveis. Mas e o sexo e a orientação sexual? E a cultura? E a língua? Poderíamos seguir usando dados demográficos para estreitar mais, porém aí estaríamos nos distanciando da ideia de uma alma gêmea aleatória. No nosso esquema, você não saberia nada sobre ela até olhá-la nos olhos. Todo mundo teria uma só orientação: em direção à alma gêmea. As chances de se deparar com seu par perfeito seriam absurdamente pequenas. O número de estranhos com os quais estabelecemos contato visual por dia varia de quase zero (no caso de introvertidos ou gente que mora em cidades pequenas) a muitos milhares (como um policial na Times Square), mas vamos supor que todo dia você troque olhares com uma média de poucas dezenas de gente que nunca viu. (Eu sou bastante introvertido, então no meu caso a estimativa é bem generosa.) Se 10% deles estão próximos da sua idade, isso daria 50 mil pessoas numa vida. Dado que você tem 500 milhões de almas gêmeas em potencial, quer dizer que só encontraria o verdadeiro amor em uma vida a cada 10 mil.

                                 

Com a ameaça de morrer solitariamente pairando tão forte, a sociedade passaria por uma reestruturação para produzir o máximo possível de contatos visuais. Poderíamos criar uma imensa esteira de produção para fazer fileiras de pessoas se olharem…

                             

… mas se o contato visual funcionar por webcam, basta usar uma versão diferente do ChatRoulette.

                                                                    
Se todo mundo usar o sistema oito horas por dia, sete dias por semana, e você precisar de dois segundos para decidir se alguém é sua alma gêmea, o sistema conseguiria — teoricamente — fazer todo mundo encontrar seu par em questão de décadas. (Fiz alguns modelos com sistemas simples para estimar com que velocidade as pessoas ganhariam pares e sairiam da reserva de solteiros. Se você quiser tentar mexer nas contas para ter uma configuração determinada, é melhor dar uma olhada em perturbações mentais.) No mundo real, muita gente tem dificuldade em encontrar algum tempo para o amor — são poucos os que poderiam dedicar duas décadas. Então quem sabe só os riquinhos poderiam ter tempo de ficar no AlmaGêmeaRoulette. Infelizmente, para o notório 1%, a maior parte de suas almas gêmeas estaria nos outros 99%. Se apenas 1% dos abastados usasse o serviço, então 1% desse 1% conseguiria encontrar seu par pelo sistema: um em cada 10 mil. Os outros 99% do 1% seriam incentivados a chamar mais gente para o sistema. Talvez patrocinassem projetos beneficentes para dar computadores ao resto do mundo — uma mistura do projeto “Um laptop por criança” com o site OKCupid. Profissões como caixa de supermercado e policial da Times Square seriam prêmios de alto escalão por conta do potencial de contato olho no olho. As pessoas migrariam para metrópoles e locais públicos para encontrar seu amor — como já fazem. Mas mesmo que muitos de nós passássemos anos no AlmaGêmeaRoulette, que outro bando conseguisse ficar em empregos que oferecessem contato visual constante com estranhos, e todos os demais contassem com a sorte, só uma pequena minoria chegaria a encontrar o verdadeiro amor. Os que restassem seriam os azarados. Com tanto estresse e tanta pressão, muita gente acabaria fingindo. Para entrar no clube, eles se uniriam a outra pessoa solitária e fariam de conta que encontraram a alma gêmea. Eles iriam se casar, esconder os problemas conjugais e fazer um esforço para estar sempre sorrindo entre amigos e família. Um mundo de almas gêmeas aleatórias seria muito solitário. Vamos torcer para que o nosso já não seja assim.

 

Fonte: Livro -00“Respostas Científicas para perguntas absurdas – E SE?” Randall Munroe

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