Estamos sendo controlados?

15 de Janeiro de 2018

Esse texto contém spoiler, então se você é daqueles que não suportam saber o final antes deve parar por aqui mesmo. Estou sendo gentil para que não me venham com comentários chatos durante a semana.

No primeiro episódio da primeira temporada de Black Mirror, “The National Anthem”o primeiro ministro britânico desperta de manhã para ser informado pelo Ministro do Interior que a Princesa Susannah, um membro muito amado da Família Real, foi sequestrada e será assassinada caso o primeiro-ministro se recuse a ter relações sexuais com um porco na televisão nacional. Isso mesmo que você leu amigão, transar com um porco ao vivo para todo o país kkkk. Assisti esse episódio por indicação do meu amigo e fiquei chocado logo aos 10 minutos de exibição, forçar um primeiro ministro a transar com um porco ao vivo para toda Inglaterra seria cômico, não fosse trágico o final.

O ponto que desejo trazer a reflexão é a forma como a notícia é divulgada na internet e os meios de comunicação, cada palavra é milimetricamente escolhida para amenizar ou “causar” (como se diz nos dias de hoje) os acompanhantes. O desenrolar do episódio demonstra como somos guiados por praticamente tudo postado nas redes sociais e exibido na TV, sem filtro, a não ser que você não tenha a tal rede ou não acompanhe TV o que provavelmente é difícil.

No início o primeiro ministro realmente acha que se trata de uma brincadeira, ledo engano do cidadão quando seus acompanhantes de governo sugerem todas as alternativas, sendo a última delas em transar com o porquinho. O governo acaba descobrindo o suposto esconderijo dos terroristas e arma uma operação de resgate a princesa, infelizmente descobrem que era falso e tudo vem por água abaixo. Até as enquetes nos meios de comunicação demonstram que a população está a favor do ministro, “não transe com o porquinho, não ceda às pressões dos terroristas”. Um plano paralelo é traçado para que um ator de filme pornô faça as cenas e as imagens sejam manipuladas para parecer o ministro, mas hoje em dia amigos qualquer notícia alguém transmite ou informa, a foto do ator cai nas redes e os terroristas descobrem a tentativa de burlar as regras para salvar a princesa Susannah. Devolvem como resposta o suposto dedo decepado da jovem junto ao seu anel. O desespero toma conta de todos e o jogo vira a favor dos vilões, as enquetes na internet já demonstram que a maioria é a favor do ministro penetrar o porquinho, “ora, eles vão matar a nossa princesa querida, o ministro deve fazer isso”. Todo esse desenrolar é muito rápido nas mídias e TV assim como nos dias de hoje, sabemos sempre onde todos estão ou o que estão fazendo.

A exigência do vídeo ao vivo para todos era até as 16:00, sendo as 15:25 o ministro se vê sem saída mediante toda pressão da opinião pública, seu futuro na política e a decisão em trepar com o porquinho. Você irá notar que a história toma conta dos noticiários da Inglaterra e logo vira final de Copa do Mundo o fim da trama, bares lotados com televisores ligados, empresas, hospitais, residências, todos sem exceção estão assistindo esperando o fim da tragédia. É doutor, não tem jeito, animal esterilizado, dopado, “é dócil” diz seu assessor, basta trepar com ele e ejacular. Pesado, nojento, chocante mesmo sem ver a cena explicita. És o clímax do episódio e ponto da nossa discussão, quando estão todos diante da TV ou pela Internet assistindo a zoofilia do primeiro ministro, ocorre o imprevisto. Não conto para não estragar sua surpresa, vou quebrar esse galho para você amante das séries. Mas o ponto central é que a Inglaterra toda parou diante da TV para assistir o ato sem notar o que ocorria ao redor, exatamente, ninguém notou o acontecimento. Parecia todos nós embarcando numa discussão sem fim nos comentários de Facebook com textões morais e éticos, ou assistindo o programa da Fátima durante a semana. Todos sem exceção fizeram o que os terroristas mandaram, assistiram.

Mas ai você pensa “comigo não ocorre isso, sei controlar muito bem minhas redes”, será? Fiquei muito pensativo ao ver a cena com toda a população diante (doente?) da TV ou no celular e caí na real de que ocorre exatamente isso conosco. É como um processo lento, indolor, incolor. É uma sinergia, você clica, posta, assiste, dá play e pronto, está lá fazendo parte do rebanho. A TV e a Internet são meios generosos de informação, mas estariam elas nos controlando? Será que não perdemos o rumo das nossas escolhas sobre dar play ou não? Sobre desligar a TV ou não? Somos produto do ambiente que criamos ou o ambiente é nosso produto? Não tenho a pretensão de responder tudo isso, apenas gostaria de fazermos pensar melhor sobre o rumo que estamos caminhando. Boa semana e desligue sua TV ou coloque seu aparelho no silencioso, se conseguir.