O Facebook terá mais perfis de mortos do que de vivos?

3 de Janeiro de 2018

VAI SER OU NOS ANOS 2060 ou 2130. Não tem muito morto no Facebook. A razão principal é que tanto a rede social quanto seus usuários são jovens. O usuário médio do Facebook envelheceu com o passar dos anos, mas o site ainda é mais utilizado — e com frequência bem maior — pelos mais jovens.
Com base na taxa de crescimento do site, e na estratificação etária de usuários ao longo do tempo, cerca de 10 a 20 milhões de pessoas que criaram perfis do Facebook já morreram. Atualmente esses perfis estão espalhados uniformemente por todo o espectro etário. Os jovens têm uma taxa de mortalidade bem menor do que quem está nos seus sessenta ou setenta anos, mas constituem uma fatia substancial dos mortos no Facebook, simplesmente porque são muitos nessa faixa etária que utilizam o site.

No futuro

Aproximadamente 290 mil usuários do Facebook nos Estados Unidos morreram em 2013. O total mundial de 2013 provavelmente chegue a muitos milhões. Daqui a sete anos, a taxa de mortalidade vai duplicar; e daqui a mais de sete anos, vai duplicar de novo. Mesmo que a rede social deixe de registrar novos usuários amanhã, o número de mortes por ano continuará a crescer durante várias décadas, pois a geração que estava na faculdade entre 2000 e 2020 vai envelhecer. O fator decisivo para saber quando os mortos superarão os vivos é descobrir se o Facebook vai acrescentar novos usuários vivos — de preferência jovens — numa velocidade rápida o bastante para vencer a maré da morte.

Facebook 2100

O que nos leva à questão do futuro do Facebook. Não temos muita experiência com redes sociais para dizer com algum grau de certeza quanto tempo o Facebook vai durar. A maioria dos sites teve um auge e aos poucos foi caindo em popularidade, portanto é razoável pensar que o Facebook seguirá o mesmo rumo. Pensando na hipótese de o Facebook começar a perder sua fatia de mercado no fim desta década e não voltar a se recuperar, sua data de conversão — a data em que o número de mortos supera o de vivos — acontece por volta de 2065.

                                                        

Mas talvez não aconteça. Talvez ele assuma um papel como o do protocolo TCP, que se torna uma peça da infraestrutura sobre a qual se constroem outras coisas e ganha pela inércia do consenso.
Se o Facebook continuar conosco gerações afora, então a data de conversão pode acontecer lá por meados dos anos 2100.

                                                 
O que parece improvável. Nada dura para sempre, e a transformação veloz tem sido a norma para tudo que se faz com tecnologia informática. O solo está forrado com ossadas de sites e tecnologias que pareciam instituições permanentes dez anos atrás. Pode ser que a realidade seja um meio-termo. Vamos ter que esperar para ver. O destino das nossas contas O Facebook tem como manter todas as nossas páginas e dados por tempo indeterminado. Os usuários vivos sempre vão gerar mais dados que os mortos, e as contas de usuários ativos são as que precisam ficar acessíveis mais prontamente. Mesmo se as contas de mortos (ou inativos) constituírem a maioria dos usuários, é provável que nunca vão se somar a ponto de virar uma parcela relevante de todo o orçamento da infraestrutura. O mais importante será as decisões que vamos tomar. O que queremos dessas páginas? A não ser que exijamos que sejam deletadas, supõe-se que, por definição, o Facebook guardará as cópias para sempre. Mesmo que não faça isso, outras organizações de sucção de dados vão preservar. No momento, pessoas de parentesco próximo podem converter o perfil do Facebook de um falecido em memorial. Mas existe um monte de perguntas em torno de senhas de acesso a dados privativos para as quais ainda não criamos normas sociais. As contas deveriam permanecer acessíveis? O que deveria continuar restrito? Os parentes próximos deveriam ter o direito de acessar as mensagens? Os memoriais deveriam liberar comentários? Como resolver trollagem e vandalismo? Os outros deveriam ter permissão para interagir com contas de usuários falecidos? Em que listas de amigos eles poderiam aparecer? São questões que estamos tentando resolver atualmente, na base de tentativa e erro. A morte sempre foi um tema difícil e carregado de emoção, e cada sociedade encontra maneiras diferentes de lidar com ela.
As peças básicas que constituem uma vida humana não mudam. Sempre comemos, aprendemos, crescemos, amamos, brigamos e morremos. Em qualquer lugar, cultura e ambiente tecnológico, criamos um conjunto de comportamentos que necessariamente se dá em torno dessas atividades. Assim como todo grupo que nos precedeu, estamos aprendendo a jogar esses mesmos jogos no nosso campinho. Estamos criando — às vezes à base de tentativa e erro e bagunça — um novo conjunto de normas sociais para namorar, discutir, aprender e crescer na internet. Mais cedo ou mais tarde, aprendemos a lidar com o luto.

 

FONTE: “Respostas Científicas para perguntas absurdas – E SE?” Randall Munroe