FLIP e o leitor crítico

24 de julho de 2016

Dia 2 e 3 de Julho visitei a 14° Festa Literária Internacional de Paraty – a FLIP. Nunca havia ido tão longe de carro dirigindo e percebi no caminho quantos lugares são simples, porém ao mesmo tempo maravilhosos de se ver durante uma viagem. Paraty fica a 260 Km da capital do Rio de Janeiro, o que dá uma média de 3 horas e meia de carro. A cidade apesar de não ser muito extensa é muito aconchegante e acessível, seu Centro Histórico pelo que andei lendo é considerado pela UNESCO como o “conjunto arquitetônico colonial mais harmonioso”. Expressões a parte, você andando pelo Centro Histórico realmente se sente numa novela ou filme colonial, me fez lembrar o Nome da Rosa – de Umberto Eco. Seus casarões são preservados até os dias de hoje, o chão das ruas manteve a arquitetura antiga em pedras mesmo o que me fez pensar o quanto as charretes tinham dificuldade para se locomover naquela época.

Literatura à parte, a FLIP tem como se diz na gíria carioca uma “vibe” diferente, são feitos debates com escritores e especialistas sobre diversos assuntos, desde poesia até a leitura dos nossos dias atuais. A FLIP me pareceu ser menos comercial que a Bienal, apesar de também possuir um certo grau de “Mercantilismo” no Centro Cultural. Entretanto não existe aquele furor em vender livros como ocorre na Bienal.

Notei um público mais velho também, em determinadas apresentações no telão sobre discussões literárias, percebia-se o tom de seriedade das pessoas sentadas à frente, atentas ao assunto e realmente concentradas, exatamente essa é a distância da Bienal. Deixo claro que não vim criticar o teor das Bienais, longe disso, vim exaltar o nível cultural da FLIP, quase que enraizado no público. As pessoas vão tanto para conhecer a cidade, como para sair do Mundo Moderno e entender o que de melhor temos na nossa cultura, literária, musical, poética ou teatral.

Quando retornei ao Rio, no caminho pela estrada vim pensando se sou um leitor midiático ou aquele criado pelas escolas. Não que um seja positivo e o outro negativo, mas quando paramos para pensar no real papel da leitura, constatamos a ausência do espírito crítico do leitor. Não temos um meio termo hoje em dia, as pessoas (a maior parte delas) estão lendo seguindo valores midiáticos, terminam de ler algo e pensam “Terminei, ótimo, vamos ao próximo”. Não está ocorrendo um sendo crítico de valores nelas, ou seja, talvez a leitura não esteja desempenhando seu principal papel – formar cidadãos críticos e autocríticos, com finalidade social. O importante para muitos têm sido “mas eu estou lendo…isso já importa”, será? Até que ponto a leitura está desempenhando um papel real na sua ou na minha vida? Até que ponto estamos utilizando e disseminando o dever e prazer literário como utilidade pública e social?

Percebi que talvez exista um abismo na atual literatura brasileira, não temos os leitores que lêem e pensam depois sobre o que leram para discutir, se temos são demasiadamente poucos diante do total de leitores que existe hoje no Brasil. A maior parte daqueles leitores sentados pensando literatura estão a um passo na frente dos leitores comuns, pois possuem uma das principais ferramentas da leitura – o senso crítico.