Lançamento de Antonio Prata pela Companhia Das Letras

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Comparado a grandes cronistas como Nelson Rodrigues e Rubem Braga, Antonio Prata é o atual craque nas crônicas mais impossíveis que você possa imaginar. Quanto mais ridículo o assunto, mais o escritor consegue transformar a narrativa numa viagem sensacional, fazendo do leitor um participante em terceira pessoa das suas crônicas.

Antonio Prata selecionou seus contos publicados em coluna na Folha de S.Paulo e lança seu livro Trinta e poucos pela editora Companhia Das Letras. Confira abaixo um dos textos:

 

Um escritor! Um escritor!

Com o jornal numa mão e um guaraná diet na outra, eu caminhava pelas ruas de Kiev, desviando de barricadas e coquetéis molotov, quando a voz no sistema de som me trouxe de volta à poltrona 11C: “Atenção, senhores passageiros, caso haja um mé- dico a bordo, favor se apresentar a um de nossos comissários”. Foi aquele discreto alvoroço: todos cochichando, olhando em volta, procurando o doente e torcendo por um doutor, até que, do fundo da aeronave, despontou o nosso herói. Vinha com passos firmes — grisalho, como convém —, a vaidade disfarçada num leve enfado, como um Clark Kent que, naquele momento, estivesse menos interessado em demonstrar os superpoderes do que em comer seus amendoins. Um comissário o encontrou no meio do corredor e o levou apressado até uma senhora gorducha que segurava a cabeça e hiperventilava na primeira fileira do avião. O médico se agachou, tomou o pulso, auscultou peito e costas, conversou baixinho com ela, depois falou com a aeromoça. Trouxeram uma caixa de metal, ele deu um comprimido à mulher e, nem dez minutos mais tarde, voltou pros seus amendoins, sob os olhares admirados de todos. Ou quase: a minha admiração, devo admitir, foi rapidamente fagocitada pela inveja. Ora, quando a medicina nasceu, com Hipócrates, a história de Gilgamesh já circulava pelo mundo havia mais de dois milênios: desde tempos imemoriais, enquanto o corpo seguia ao deus-dará, a alma era tratada por mitos, versos, fábulas — e, no entanto… No entanto, caros leitores, quem aí já ouviu uma aeromoça pedir, ansiosa: “Atenção, senhores passageiros, caso haja um escritor a bordo, favor se apresentar a um de nossos comissários”? Eu não me abalaria. Fecharia o jornal sem afobação, poria uma Bic e um guardanapo no bolso, iria até a senhora gorducha e me agacharia ao seu lado. Conversaríamos baixinho. Ela me confessaria, quem sabe, estar prestes a reencontrar o filho, depois de dez anos brigados: queria falar alguma coisa bonita pra ele, mas não era boa com as palavras. Eu faria uma rápida anamnese: perguntaria os motivos da briga, o nome do filho, se ele tava mais pra Chet Baker ou pra Sylvester Stallone, levantaria recordações prazerosas da relação, pinçaria um ou dois versos do Drummond — ou do Raul, a depender do gosto do cliente — e, antes de tocarmos o solo, entregaria à mulher três parágrafos capazes de verter lágrimas até da estátua do Borba Gato. De volta ao meu lugar, passageiros me cumprimentariam e compartilhariam histórias semelhantes. Uma jovem mãe me contaria do primo poeta que, ao ouvir os apelos do garçom, num restaurante — “Um escritor, pelo amor de Deus, um escritor!” —, tinha sido levado até um rapaz apaixonado e conseguido escrever seu pedido de casamento no cartão de um buquê antes que a futura noiva voltasse do banheiro. Um senhor comentaria o caso muito conhecido do romancista que, num cruzeiro, após as súplicas de três mil turistas, fora capaz de convencer duzentos tripulantes a abandonar o gerúndio. Eu sorriria, de leve. Diria “Pois é, se você escolheu essa profissão, tem que tá preparado pra emergências”, então recusaria educadamente o saquinho de amendoins que a vizinha de poltrona me ofereceria e voltaria pras bombas da Crimeia, com meu copo de guaraná.

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