VOLTANDO DA BIENAL

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VOLTANDO DA BIENAL

28 de Agosto, 19:10, Aeroporto de Congonhas, SP.

Era o voo 1050 de São Paulo para o Rio de Janeiro e como de praxe tinha algo em mãos para ler, naquela noite era o meu kindle. Voltava de mais uma edição literária da Bienal na qual geralmente encontro e conheço pessoas que nunca vi, abraço e beijo pessoas onde provavelmente voltarei a ver daqui a 365 dias em outro evento literário ou somente na próxima vida. São meus famosos amigos virtuais que durante meses troquei “figurinhas literárias”. Emoções à parte e retornando para casa, me concentro em não ficar nervoso por estar dentro de um avião. Confesso, não me sinto à vontade no céu.

Eis que uma moça senta na ponta da fileira, saca de prontidão seu moleskine (aqueles caderninhos de escrita), e começa a escrever. Não sou um cara curioso, nunca fui, mas aquela senhora começou a me incomodar. Era a forma como ela escrevia, com fluidez e sem hesitar. Em determinado momento nem a luz do passageiro ela acendeu, o atendente no avião passando pelo corredor notou que ela estava escrevendo e resolveu iluminar o seu ato. Acredito que se estivesse às escuras, ela escreveria da mesma forma, não precisaria enxergar para isso de tão compenetrada que estava. Pensei, “deve estar anotando alguma informação breve, daqui a pouco ela encerra”. Entretanto a criatura não encerrou sua desenvoltura com a caneta em mãos. A partir desse momento minha leitura no kindle já havia ido para o espaço de Douglas Adams e criei internamente uma meta de vida – descobrir o que ela estava escrevendo. Me chamem do que desejarem, mal educado, inconveniente, papagaio de pirata…enfim, pensei comigo mesmo “estou retornando da Bienal, ela pode ser escritora, vou perguntar”.

      – Desculpe incomodá-la, a senhora é escritora?

Ela não esboçou uma expressão de surpresa, é como se já esperasse alguma pergunta da minha parte, como se realmente tivesse que sentar naquela poltrona no voo 1050 e me dizer algumas palavras. Rapidamente ela fechou seu caderninho, olhou para mim sorridente e disse:

      -Trata-se de um curso que estou fazendo.

Fiquei um pouco abismado…curso!? Desculpem minha ignorância, mas não sabia que existia curso ou magia para se tornar um escritor. Do meu ponto de vista um escritor nascia de uma frase do pensador Dave Weinbaum – “Se não puder se destacar pelo talento, vença pelo esforço”. O esforço e persistência para quem deseja escrever sempre vai existir, mas conforme a ilustre passageira “existe o estudo da escrita também, tipos de textos, formas de escrita e de linguagem”. Escrever é uma ciência.

Óbvio que entramos no assunto dos livros. Todo leitor adora compartilhar suas experiências de leitura e seus famosos “tics”. A jovem que deselegantemente interrompi é médica, não só médica, estudou medicina oriental e está escrevendo 3 livros. Durante o temido voo, tive que interroga-la sobre diversos assuntos. Questionei como ela lidava por ser médica na questão da fé e medicina andarem juntas. Com muita suavidade ela respondeu:

       -Não sei porquê as pessoas tentam separar”.

Daí por diante foi uma viagem sem fim e acabei descobrindo o misticismo da escrita daquela jovem. Ela participa de um projeto chamado Escrita Criativa, criado por um rapaz chamado Tiago Novaes. Descrevo “rapaz” porque se tiver que listar todas as atribuições já realizadas por ele, ficaremos aqui até amanhã. Escritor, psicólogo, jornalista, colunista, tradutor…e por ai vai. Não conhecia este curso que tem como objetivo estimular, orientar e ensinar a prática da escrita para iniciantes e já experientes no ramo. Ao fim deste texto deixarei o link da fan page no facebook do projeto para quem desejar conhecer.

Apresentei a ela minha vontade de também escrever um livro e citei algumas ideias absurdas, e sem perceber o voo havia terminado. Acompanhei já a minha amiga naquele momento de mais de 10 anos até a área de desembarque para a despedida temporária. Digo breve, pois acredito que vou esbarrar novamente com a mesma para outra maravilhosa conversa sobre livros, contos e escrita. Antes da despedida com o mesmo sorriso do inicio da conversa ela concluiu:

      – Não acredito em coincidências ou acaso, tudo tem um fundamento. Se você deseja escrever acho que deveria ir em frente. Encontrarmos no avião e conversarmos sobre isso tudo não é por acaso.

Esse dia foi aquele atípico, que você acha que tudo vai ocorrer normalmente, retornar para casa, dormir e acordar no dia seguinte para trabalhar, mas por conta da  imprevisibilidade da vida alguém aparece e diz “porque você não tenta?!” . Ninguém realmente vai bater a sua porta e dizer coisas que você gosta e te incentivar, mas o fato é que sempre encontramos situações que nos dão coragem a fazer o irrealizável. Fazia muito tempo que não conversava sobre livros olhando nos olhos de alguém, cá entre nós, encontramos cada vez menos leitores cativantes. Inexplicavelmente o melhor do retorno da Bienal foi um conversa simples de 45 minutos.

Escrita Criativa – https://www.facebook.com/escritacriativatiagonovaes/?fref=ts

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